Antes de crescer, crie raízes
O progresso visível é apenas a consequência de um desenvolvimento que começou muito antes
1. Abertura
Vivemos em uma época fascinada pelo crescimento visível.
O novo cargo.
A empresa que se expandiu.
O patrimônio acumulado.
O corpo transformado.
O reconhecimento conquistado.
A carreira bem-sucedida.
Vemos o resultado final, mas quase nunca enxergamos tudo o que precisou acontecer antes que ele se tornasse visível.
O bambu oferece uma metáfora poderosa para esse processo.
Durante um longo período, a parte mais importante de seu desenvolvimento acontece onde ninguém consegue ver. Enquanto acima da terra parece existir pouco movimento, abaixo dela uma estrutura está sendo formada.
As raízes se fortalecem.
A base se amplia.
O solo é ocupado.
Somente depois dessa preparação o crescimento se torna evidente.
Quando finalmente rompe a superfície, o bambu pode crescer rapidamente. E, depois de alcançar altura, revela outra característica importante: diante do vento, ele se curva, mas não se rompe facilmente.
Primeiro, cria raízes.
Depois, cresce.
Quando a tempestade chega, enverga.
Quando o vento passa, recupera sua posição.
Talvez o progresso humano funcione de maneira semelhante.
Antes dos resultados, existe a formação.
Antes do reconhecimento, existe a preparação.
Antes da velocidade, existe a profundidade.
Antes da resistência, existem as experiências que nos ensinaram a suportar os ventos.
O problema é que temos dificuldade para respeitar a fase subterrânea.
Queremos crescer antes de criar raízes. Queremos reconhecimento antes de construir competência. Queremos resultados antes de desenvolver as virtudes necessárias para sustentá-los.
Ao olhar para minha própria trajetória, percebo que grande parte do que hoje parece resultado foi construída em períodos nos quais aparentemente pouca coisa estava acontecendo.
Foram anos estudando, trabalhando, lendo, treinando, errando, ajustando e recomeçando.
O progresso não aconteceu de uma só vez.
Ele foi sustentado principalmente por cinco virtudes: paciência, disciplina, humildade, resiliência e constância.
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Parte 1 - Paciência para respeitar o tempo das raízes
Durante quase nove anos, fiz três pós-graduações em áreas diferentes.
Nenhuma delas produziu uma transformação imediata.
Não houve um momento específico em que terminei uma aula, recebi um certificado e, no dia seguinte, minha carreira mudou completamente.
O resultado foi mais silencioso.
Ao longo do tempo, os estudos ampliaram meu conhecimento, fortaleceram relacionamentos, criaram amizades e me deixaram mais preparado para oportunidades que ainda nem existiam.
Era a fase das raízes.
Por fora, talvez não houvesse uma grande mudança. Por dentro, uma estrutura estava sendo formada.
Esse é um dos aspectos mais difíceis do desenvolvimento: continuar investindo quando ainda não conseguimos enxergar claramente o retorno.
Quando o resultado demora, começamos a duvidar do processo.
Será que estou estudando a coisa certa?
Será que este esforço fará diferença?
Será que não estou perdendo tempo?
Será que deveria estar avançando mais rapidamente?
A impaciência nasce quando comparamos a lentidão do nosso processo com a parte visível da trajetória dos outros.
O bambu não comete esse erro.
Ele não interrompe a criação das raízes porque outra planta cresceu primeiro.
Ele permanece no próprio processo.
A paciência, portanto, não é uma espera passiva. É a capacidade de continuar trabalhando durante o período em que os resultados ainda não apareceram.
Também vivi situações em que fui colocado diante de um projeto para o qual não me sentia preparado.
E, sendo honesto, provavelmente eu ainda não estava completamente preparado.
Mas a preparação aconteceu durante o próprio desafio.
Nem sempre a maturidade chega antes da responsabilidade. Algumas vezes, a responsabilidade nos obriga a desenvolver rapidamente a maturidade necessária.
A raiz continua crescendo enquanto o bambu já começa a aparecer.
Isso exige paciência, mas não acomodação.
A diferença entre as duas está na ação.
Quem é paciente continua observando, aprendendo, ajustando e avançando.
Quem está acomodado usa o tempo como justificativa para não decidir.
Por isso, o autoconhecimento é tão importante. Questionar-se com frequência, escrever em um journal e examinar honestamente as próprias decisões ajuda a perceber se estamos respeitando o processo ou apenas adiando algo que precisa ser enfrentado.
Paciência não é esperar que o tempo resolva tudo.
É utilizar o tempo para se preparar.
Parte 2 - Disciplina para continuar cuidando do solo
Criar raízes exige repetição.
Não basta plantar uma vez.
É necessário continuar cuidando do solo, fornecendo água e protegendo aquilo que ainda está se formando.
Na minha vida, a atividade física talvez seja o exemplo mais concreto dessa virtude.
Corro e treino há mais de 25 anos.
Ao longo desse período, houve cansaço, viagens, mudanças profissionais, compromissos familiares, dias bons e dias ruins.
O que preservou esse hábito não foi a motivação.
Foi a rotina.
A saúde se tornou um valor. E, quando algo se transforma em valor, precisa encontrar espaço na agenda — não apenas quando sobra tempo ou quando existe disposição.
A disciplina é mais importante justamente nos dias ruins.
Nos dias bons, fazer o que precisa ser feito é relativamente simples. Existe energia, entusiasmo e sensação de progresso.
Nos dias ruins, a decisão é diferente.
É nesse momento que precisamos escolher entre cumprir o compromisso possível ou abandonar completamente o processo.
Há dias em que o treino será excelente.
Em outros, talvez sejam apenas 30 minutos de musculação.
Mas 30 minutos ainda preservam o hábito.
Fazer menos não é o mesmo que desistir.
O bambu não abandona suas raízes porque as condições não foram perfeitas naquele dia. Seu desenvolvimento depende da continuidade, não de um único momento extraordinário.
A disciplina funciona da mesma maneira.
Ela não é necessária apenas na atividade física.
É um engano acreditar que algumas áreas da vida precisam de disciplina e outras podem ser conduzidas apenas pela intenção.
A carreira exige disciplina.
As finanças exigem disciplina.
Os relacionamentos exigem disciplina.
A vida espiritual exige disciplina.
A leitura exige disciplina.
O cuidado com a família exige disciplina.
Talento ajuda. Boa vontade também. Mas nenhum dos dois substitui a repetição responsável daquilo que precisa ser feito.
Antes de crescer, precisei aprender a fazer mesmo sem vontade.
A ação não depende sempre da motivação. Muitas vezes, a motivação aparece depois que começamos a agir.
Essa ordem é importante:
Não espere sentir vontade para começar.
Comece, e permita que a ação produza movimento.
Parte 3 - Humildade para reconhecer que ainda estamos em formação
Nenhuma raiz cresce sozinha.
Ela depende do solo, da água, dos nutrientes e das condições que a cercam.
O bambu pode alcançar grande altura, mas continua dependente de uma estrutura que não criou sozinho.
A humildade começa quando reconhecemos nossa dependência.
Mesmo depois de muitos anos de experiência profissional, diversos projetos me mostraram que experiência não significa saber tudo.
Um exemplo foi a participação em um projeto de implantação de ERP.
Foi uma experiência bastante desafiadora, que exigiu aprendizado, adaptação e disposição para lidar com conhecimentos que eu ainda precisava desenvolver.
É comum associarmos experiência a domínio.
Mas a verdadeira experiência não elimina a necessidade de aprender. Ela apenas nos dá mais recursos para compreender o quanto ainda não sabemos.
Também recebi feedbacks difíceis ao longo da carreira.
Nem sempre é confortável ouvir que precisamos mudar alguma coisa. A primeira reação pode ser de incômodo, defesa ou justificativa.
O ponto decisivo, porém, é não permanecer incomodado por tempo demais.
É necessário avaliar o feedback, separar aquilo que faz sentido, ajustar quando necessário e continuar avançando.
A humildade não consiste em aceitar qualquer crítica sem análise.
Consiste em não permitir que o orgulho nos impeça de examinar uma crítica válida.
Em alguns momentos, profissionais crescem em cargo, renda ou autoridade mais rapidamente do que crescem em maturidade.
Isso é mais comum do que imaginamos, e pode acontecer com qualquer pessoa.
Entretanto, isso não significa necessariamente que ela fracassará. Em muitos casos, a maturidade será construída durante a própria situação.
Novamente, as raízes continuam se formando enquanto o bambu cresce.
O perigo aparece quando a pessoa acredita que a posição alcançada prova que ela não precisa mais aprender.
Quanto maior a responsabilidade, maior deveria ser a disposição para ouvir, revisar decisões e reconhecer limitações.
A humildade não diminui a autoridade.
Ela impede que a autoridade se transforme em cegueira.
Crescer exige confiança.
Continuar crescendo exige humildade.
Parte 4 - Resiliência para envergar sem quebrar
Talvez essa seja a característica mais conhecida do bambu.
Quando o vento sopra com força, ele não tenta permanecer completamente imóvel.
Ele enverga.
Sua resistência não vem da rigidez, mas da flexibilidade.
Na vida profissional, enfrentei um problema de qualidade envolvendo um cliente estratégico. Foi uma situação especialmente desafiadora porque não havia apenas uma questão técnica a ser resolvida.
Era necessário gerenciar o problema como um todo.
O cliente.
As pressões internas.
As causas.
As consequências.
Os relacionamentos.
As decisões.
A urgência.
A necessidade de preservar a confiança.
Situações assim nos mostram que conhecimento técnico, isoladamente, não é suficiente. Precisamos ser capazes de enfrentar diferentes problemas simultaneamente sem perder completamente o equilíbrio.
Foi uma experiência que fortaleceu minha capacidade de lidar com múltiplas pressões.
Também me ensinou que resiliência não é uma característica opcional.
Ela é uma virtude necessária.
Entretanto, existe uma distinção importante entre resiliência e teimosia.
Já insisti demais em alguns planos. Talvez tenha sido um erro.
Mas essa avaliação nem sempre é simples. Em alguns casos, desistimos cedo demais. Em outros, insistimos quando já deveríamos ter mudado de direção.
E sempre permanecerá a dúvida:
Se eu tivesse insistido mais, o resultado poderia ter sido melhor?
Ou insistir por mais tempo apenas aumentaria o custo de uma decisão errada?
Não existe uma fórmula que elimine completamente essa incerteza.
O bambu enverga, mas não abandona suas raízes.
Essa talvez seja a melhor referência.
Podemos adaptar a estratégia sem abandonar os valores.
Podemos mudar o caminho sem desistir do propósito.
Podemos reconhecer que um plano falhou sem concluir que toda a jornada perdeu o sentido.
Rigidez é insistir na mesma resposta quando a realidade já mudou. REFLITA.
Resiliência é permanecer fiel ao essencial enquanto encontramos uma nova maneira de avançar.
Força não é nunca ser abalado.
Força é não permitir que cada vento determine quem nos tornaremos.
Parte 5 - Constância para crescer um segmento de cada vez
O bambu não aparece pronto.
Seu crescimento acontece progressivamente, sustentado por cada parte que veio antes.
Nossa vida também é construída por segmentos.
Uma leitura.
Um treino.
Uma conversa.
Uma decisão.
Uma correção.
Uma oração.
Uma página escrita.
Uma ligação realizada.
Uma pequena renúncia.
Separadamente, essas ações parecem pouco relevantes. Repetidas durante anos, tornam-se uma trajetória.
A leitura foi uma das práticas mais constantes da minha vida.
Já escrevi no passado, parei e voltei.
Também tive um podcast.
Em alguns momentos, interrompi projetos e depois recomecei.
Mas a leitura permaneceu.
Ela continuou sustentando meu desenvolvimento e minha vida espiritual e intelectual, mesmo quando outras iniciativas mudaram de formato.
A newsletter “Eu Melhor que Ontem” também faz parte desse processo.
Ela não surgiu de uma mudança repentina de identidade. Escrever, refletir e buscar desenvolvimento já estavam presentes em diferentes momentos da minha trajetória.
A newsletter é uma nova expressão de uma raiz antiga.
Agora, depois de mais de 30 anos de carreira, comecei também a estudar filosofia.
Isso revela algo importante: criar raízes não é apenas uma etapa inicial da vida.
O desenvolvimento precisa continuar.
Não existe um momento no qual podemos declarar que estamos definitivamente prontos.
Novas fases exigem novas raízes.
Em determinado período, percebi que precisava compreender melhor as finanças corporativas e procurei uma pós-graduação na área.
Não porque todo o restante da minha trajetória estivesse errado, mas porque aquela parte da estrutura precisava ser fortalecida.
O crescimento profissional sem desenvolvimento emocional, familiar, espiritual e intelectual produz desequilíbrio.
Podemos crescer muito em uma direção e ainda assim fragilizar o conjunto.
Um bambu alto com raízes frágeis não está verdadeiramente preparado para a tempestade.
Por isso, constância não significa repetir tudo indefinidamente.
Também significa identificar qual parte da estrutura precisa ser desenvolvida agora.
Nesta fase da minha vida, uma das virtudes que ainda preciso fortalecer é o foco.
Existem muitas possibilidades, informações, projetos e distrações.
No início, disciplina é conseguir fazer.
Depois, disciplina passa a ser escolher o que merece ser feito.
É aprender a renunciar.
É compreender que dizer “sim” para uma prioridade exige dizer “não” para várias distrações.
O desenvolvimento constante não exige que façamos tudo.
Exige que continuemos fazendo o essencial.
11. CTA - Eu melhor que ontem / Fechamento
Nem todo crescimento representa progresso.
É possível crescer profissionalmente e perder a saúde.
É possível ampliar a renda e enfraquecer os relacionamentos.
É possível conquistar autoridade sem desenvolver maturidade.
É possível acumular conhecimento sem adquirir sabedoria.
É possível ganhar visibilidade sem possuir sustentação interna.
Crescimento é expansão.
Progresso é expansão com direção, equilíbrio e capacidade de sustentação.
Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja:
“Quanto estou crescendo?”
Mas:
“Estou criando as raízes necessárias para sustentar o lugar ao qual desejo chegar?”
As oportunidades podem aparecer rapidamente.
Uma promoção pode acontecer.
Um projeto importante pode chegar antes de nos sentirmos preparados.
Um negócio pode crescer.
Novas responsabilidades podem surgir.
Nesses momentos, talvez não tenhamos todas as raízes de que precisaremos.
Mas podemos continuar desenvolvendo-as durante o caminho.
O essencial é não confundir altura com solidez.
Primeiro a raiz. Depois a altura.
O bambu nos ensina que, durante algum tempo, progresso pode parecer imobilidade.
Mas nem tudo o que está parado está estagnado.
Talvez algo importante esteja sendo construído abaixo da superfície.
Conhecimento.
Caráter.
Maturidade.
Relacionamentos.
Fé.
Disciplina.
Reputação.
Capacidade de suportar pressão.
O período em que ninguém percebe seu crescimento pode ser justamente aquele que determinará até onde você conseguirá chegar.
Por isso, a quem está fazendo o que precisa ser feito, mas ainda não consegue enxergar os resultados, eu diria:
Certifique-se de que está na direção correta.
Questione-se.
Observe.
Faça os ajustes necessários.
E continue.
Keep going.
Não porque toda persistência produzirá o resultado desejado. Isso seria ingenuidade.
Mas porque nenhum progresso relevante é construído sem tempo, repetição e capacidade de permanecer.
Hoje entendo que progresso não é fazer muito de vez em quando.
É fazer, ainda que pouco, de maneira constante.
É continuar nos dias bons e, principalmente, nos dias ruins.
É ajustar sem abandonar.
É envergar sem quebrar.
É aprofundar as raízes enquanto seguimos crescendo.
Progresso é tornar-se melhor que ontem.
Sem transformar a própria vida em uma comparação permanente com a trajetória dos outros.
Para refletir
Em qual área da sua vida você está exigindo resultados visíveis antes de ter criado raízes suficientes?
Entre paciência, disciplina, humildade, resiliência e constância, qual virtude precisa ser fortalecida nesta fase da sua trajetória?
Talvez você ainda não consiga enxergar o crescimento.
Mas isso não significa que nada esteja acontecendo.
Continue cuidando das raízes.
Nos vemos na próxima.
Sem pressa.
Sem peso.
Com intenção.
Tenho publicado reflexões práticas por lá — sem fórmula mágica, mas com propósito diário.
https://www.linkedin.com/in/jefersoncabralperes/
Abraço,
Jeferson Peres.
Jeferson Peres
Pare de Sobreviver:
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