Cuidar de si é um ato de liderança
Você também é responsável pela energia, pela clareza e pela saúde que leva para as pessoas ao seu redor
1. Abertura
No final da faculdade, quase tudo parecia importante ao mesmo tempo.
Eu trabalhava.
Estudava.
Era pai.
E tentava dar conta de tudo sem deixar nenhuma dessas responsabilidades cair.
Por fora, funcionava.
Por dentro, o custo começava a aparecer.
Sono ruim.
Cansaço constante.
Irritação.
Pouca disposição.
Alimentação pior.
E quase nenhum espaço para cuidar de mim.
O curioso é que eu não me considerava irresponsável.
Muito pelo contrário.
Na minha cabeça, responsabilidade era justamente continuar entregando apesar do cansaço.
Hoje vejo aquela fase de outro jeito.
Eu estava cuidando do trabalho.
Dos estudos.
Da família.
Mas quase não cuidava de quem precisava sustentar tudo isso.
Demorei para entender uma coisa simples:
cuidar de si não é fugir das responsabilidades.
É manter-se em condições de carregá-las sem se destruir no processo.
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Parte 1 — Responsabilidade também inclui você
Durante muito tempo, eu associei responsabilidade a uma coisa simples:
dar conta.
Cumprir o combinado.
Entregar no prazo.
Não deixar ninguém na mão.
E continuo acreditando nisso.
O problema é quando a responsabilidade passa a olhar para todos os lados, menos para dentro.
Naquela fase do final da faculdade, eu estava tentando ser responsável com o trabalho, com os estudos e com a família.
Mas quase nunca incluía a mim mesmo nessa equação.
Hoje isso me parece estranho.
Porque, se outras pessoas dependem da nossa presença, da nossa clareza e da nossa capacidade de decidir, cuidar de nós também passa a fazer parte da responsabilidade.
Não como privilégio.
Como dever.
Dormir melhor.
Mover o corpo.
Comer de forma minimamente decente.
Preservar algum espaço mental.
Nada disso elimina as obrigações.
Mas ajuda a sustentar quem precisa enfrentá-las.
Com o tempo, percebi que negligenciar a própria saúde não atinge apenas quem se negligencia.
A irritação chega em casa.
A exaustão aparece no trabalho.
A impaciência entra nas conversas.
A falta de energia contamina decisões.
Hoje entendo cuidar de mim de uma forma bem diferente.
Não como um projeto individual de bem-estar.
Mas como uma forma de respeito também por quem acredita em mim e depende de mim.
Porque responsabilidade não é apenas suportar peso.
É preservar quem precisa carregá-lo.
Parte 2 — Alguns líderes ensinavam sem falar
No início da minha carreira, comecei a perceber um padrão interessante.
Alguns dos líderes que mais me inspiravam cuidavam de si.
Não todos.
Mas alguns.
E isso aparecia menos no discurso e mais na forma como chegavam.
Tinham energia.
Presença.
Serenidade.
Conseguiam atravessar dias difíceis sem transmitir a sensação de que estavam sempre no limite.
Na época, eu não fazia essa associação de forma consciente.
Hoje faço.
Porque liderança não aparece apenas nas decisões importantes.
Ela também aparece no estado em que você chega para tomá-las.
Uma pessoa exausta decide diferente.
Escuta diferente.
Responde diferente.
Tem menos paciência.
Menos clareza.
Menos margem para lidar com imprevistos.
Talvez por isso alguns líderes transmitissem tanta segurança mesmo sem precisar falar muito.
Havia uma espécie de disciplina silenciosa ali.
Cuidavam do corpo.
Do descanso.
Da rotina.
Da própria cabeça.
Não como espetáculo.
Como manutenção.
Essa palavra me parece adequada.
Porque ninguém espera uma máquina quebrar completamente para admitir que manutenção importa.
Com pessoas, às vezes fazemos exatamente isso.
Seguimos funcionando até quase parar.
Hoje entendo que cuidar de si também comunica alguma coisa para quem está ao redor.
Mostra que longevidade importa.
Que presença importa.
Que consistência importa.
E talvez essa seja uma forma de liderança que quase nunca aparece no organograma:
a maneira como você cuida de si ensina, silenciosamente, como pretende atravessar o tempo.
Parte 3 — Cuidar de si não precisa ser sofisticado
Quando pensamos em autocuidado, existe uma tendência de complicar.
Rotinas perfeitas.
Protocolos.
Aplicativos.
Métricas.
Suplementos.
Uma agenda tão organizada que quase vira outro trabalho. Já fui assim... kkk
Hoje, para mim, cuidar de si é muito mais simples.
Sono.
Movimento.
Alimentação.
Oração.
Missa.
Nada disso parece extraordinário.
E talvez essa seja justamente a força.
Porque a vida raramente melhora por causa de uma grande intervenção feita uma vez.
Ela costuma melhorar quando repetimos algumas práticas simples durante muito tempo.
James Clear fala muito sobre isso quando trata da força dos pequenos hábitos.
E percebo a mesma lógica aqui.
Dormir uma noite melhor não transforma sua vida.
Caminhar uma vez não muda seu condicionamento.
Comer bem num único dia não resolve nada.
Uma oração isolada não organiza toda a mente.
Mas a repetição começa a mudar a forma como atravessamos os dias.
O problema é que o simples não impressiona.
E, por isso, muitas vezes é subestimado.
Queremos uma solução grande para um problema que foi construído aos poucos.
Hoje prefiro pensar diferente.
Cuidar de mim não precisa parecer sofisticado.
Precisa ser possível de sustentar.
E talvez o melhor sinal de que uma prática funciona seja justamente este:
ela consegue caber na vida real.
Parte 4 — A negligência mais perigosa é aquela que adiamos conscientemente
Existe um tipo de negligência que quase nunca começa por falta de informação.
Ela começa quando sabemos o que precisa mudar.
E adiamos.
Sabemos que precisamos dormir melhor.
Nos movimentar mais.
Comer de forma menos descuidada.
Retomar a oração.
Voltar à missa com mais presença.
Reduzir alguma coisa que claramente está nos fazendo mal.
Mas ficamos esperando um momento melhor.
Segunda-feira.
O mês virar.
As férias.
O projeto acabar.
A agenda aliviar.
O problema é que a vida raramente abre espaço sozinha.
Na maioria das vezes, somos nós que precisamos criar esse espaço.
E é justamente aí que penso na fortaleza.
Normalmente associamos essa virtude a suportar grandes dificuldades.
Aguentar pressão.
Enfrentar medo.
Continuar quando tudo fica difícil.
Mas cuidar de si também exige fortaleza.
Porque muitas vezes o desafio não é descobrir o que fazer.
É começar aquilo que já sabemos que deveria ter começado.
E quase nunca precisa ser de forma heroica.
Às vezes, a mudança começa com uma caminhada curta.
Uma refeição um pouco melhor.
Dormir trinta minutos antes.
Retomar uma prática espiritual.
Pequenos movimentos.
Mas movimentos reais.
Hoje acredito que cuidar de si exige menos promessa e mais coragem para começar pequeno.
Porque negligência também pode ser isso:
continuar adiando uma mudança que, no fundo, você já sabe que precisa fazer.
Parte 5 — Cuidar de si também exige virtude
Quanto mais penso sobre cuidado pessoal, menos consigo enxergá-lo apenas como uma questão de rotina.
Dormir melhor.
Comer melhor.
Mover o corpo.
Rezar.
Ir à missa.
Tudo isso importa.
Mas existe algo anterior às práticas:
a forma como escolhemos conduzir a nós mesmos.
É aí que as quatro virtudes cardeais começam a fazer sentido de maneira muito concreta.
Prudência para perceber o que precisa mudar.
Temperança para colocar limites no excesso.
Justiça para lembrar que nossas escolhas também impactam quem depende de nós.
E fortaleza para agir quando sabemos o que precisa ser feito, mas continuar igual parece mais confortável.
Essa última, para mim, é especialmente importante.
Porque muitas vezes já temos informação suficiente.
Sabemos que estamos dormindo pouco.
Sabemos que estamos sedentários.
Sabemos que nossa alimentação pode melhorar.
Sabemos que estamos deixando de lado práticas que nos fazem bem.
O problema não é falta de conhecimento.
É transformar consciência em movimento.
Talvez cuidar de si seja justamente um dos lugares mais silenciosos onde a fortaleza aparece.
Não em grandes gestos.
Mas na decisão de interromper um padrão.
De começar pequeno.
De permanecer.
E de aceitar que disciplina não serve apenas para produzir mais.
Ela também serve para preservar aquilo que permite continuar produzindo:
você.
REFLEXÃO FINAL
Quando lembro daquela fase no fim da faculdade, não vejo alguém que precisava “se cuidar mais” no sentido superficial da expressão.
Vejo alguém tentando sustentar muita coisa ao mesmo tempo.
Trabalho.
Estudo.
Paternidade.
Responsabilidades reais.
E talvez por isso eu tenha demorado tanto para perceber que eu também fazia parte daquilo que precisava ser sustentado.
Hoje, quando penso em sono, movimento, alimentação, oração e missa, não penso apenas em bem-estar.
Penso em presença.
Clareza.
Energia.
Capacidade de continuar cumprindo bem aquilo que depende de mim.
Cuidar de si não elimina o peso da vida.
Mas ajuda a carregá-lo de forma mais inteira.
E talvez seja por isso que a fortaleza me parece tão importante aqui.
Fortaleza não é apenas aguentar mais.
Também é ter coragem para reconhecer quando alguma coisa precisa mudar.
E começar.
Mesmo pequeno.
Mesmo devagar.
Mesmo sem estar tudo organizado.
Porque, no fim, cuidar de si também é uma forma silenciosa de dizer a quem acredita e depende de você:
quero continuar inteiro para estar aqui.
Nos vemos na próxima.
Sem pressa.
Sem peso.
Com intenção.
Tenho publicado reflexões práticas por lá — sem fórmula mágica, mas com propósito diário.
https://www.linkedin.com/in/jefersoncabralperes/
Abraço,
Jeferson Peres.
Jeferson Peres
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